Terça-feira, 15 de Maio de 2012

#20


Não se faz sentido deste modo, com as coisas aos bocados espalhadas ao acaso, com as palavras gagas, a vida inteira sentada num banco de jardim longe daqui, talvez um copo de plástico na mão, alguma cerveja, alguns cigarros, a vida inteira uma coisa maravilhosa num sorriso, nos dedos tamborilando sobre as pernas, pessoas em redor falando alto e bem, rindo alto e bem, com a garganta toda às estrelas, não é nada disso, queestupidezestascoisastodasditasdecor - sim, as coisas ditas de cor que se tem de fingir coração e dedos frágeis para não se amachucarem os planos e o futuro


os planos e o futuro


com as sílabas todas devagar, sff


os
p[e]
la
nos
e
o
fu
tu
ro


marcá-las a todas como botas em gravilha.
Deixa estar. Não há de ser assim tão mau e, com sorte, não há de ser nada e com nada vive-se bem, vive-se morno, com a garganta pouco arranhada.

Segunda-feira, 23 de Abril de 2012



(poema feito música ou poema que não poderia não ser música)


Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

#19


(esboço da minha inutilidade, lâmina romba, fingida grandeza de espírito, orgulho cobarde, bandeira de lugar nenhum, nenhuma força, esconderijo debaixo de terra, refeição servida à minha ordem, ânsia, apenas ânsia dos outros, a minha falsidade, doença, traição encoberta, cama pronta para me deitar, fotografia gasta, ferrugem, rendas e enfeites, crianças estúpidas gritando-me aos ouvidos, fuga medíocre, olhos abertos como caça, sofrimento por coisa nenhuma que nada ninguém coisa nenhuma lugar algum pessoa alguma, ar rarefeito, medo, apenas medo, má sorte, má morte)



Domingo, 25 de Março de 2012

#18



à porta de casa

em frente a demolição da escola:
na terra revolvida
trincheira
os rostos e as vozes de antes
adeus,
boa noite
ao vizinho de quem se diz
que bebe demais
que bate na mulher
que bate no cão
enquanto uma televisão
lamento de amores impotentes
vibrando violinos gatos
uma comédia com esgares tremendos
e bandas filarmónicas marchando piscando o olho,

a pensar escrever poemas insuflados
palavras complicadas para impressionar concorrentes
ou
como escrever poemas
com pessoas agredidas na rua
amigos com milhares de quilómetros entres as frases
os bolsos pesados de ar
a boca sufocada em pó
ou
«escrever poemas»
para quê
tantos pormenores
a bordejarem as franjas do coração
se um anzol à língua e a garganta estreita gruta,
adeus ao vizinho a mão no ar
como à escola destruída acenando lento
boa noite às pessoas nas valas comuns.

para quê poemas
se falta o peito contra as balas
se faltam as balas ou a língua.



Quarta-feira, 21 de Março de 2012

#17



o homem de noite nos olhos cerrados calcula
mas a matemática é confusa:
o homem erra e arrepende-se e erra de novo.

o homem carrega um cristal pesado
na ponta dos dedos,
o homem é fraco,
tem uma sinfonia de palavras e sons
que só ele compreende
e o homem, dizem, não é louco:
é jovem e apto e é mau terreno para flores,
mas o homem tem dores
pela força que faz ao empurrar a manhã
e o homem desespera,
e o homem diz:
enterra
- o passado ou os outros
e visita-os em dias santos,
leva-lhes flores
e fica em silêncio.

o homem à noite é coveiro
ou cova pouco larga.



Terça-feira, 13 de Março de 2012

#16


O meu braço está esticado com tanta dor que, do pulso ao ombro, me dá choques por dentro – ora, o meu braço eléctrico por dentro como um homem de sessenta anos sentado na borda da cama sem coragem para olhar a mulher que ainda dorme, a seu lado, e o seu cheiro e o seu corpo desagradável: a mulher a dormir é um caminho demasiado estreito impossibilitando tornar atrás por causa das silvas que o ladeiam, as silvas e os espinhos e a terra a abater-se para uma vala cheia de gente quieta com os braços ao longo do corpo, eléctricos por dentro de dor, castanhos e cinzentos, deitados como peixes secos, como obuses ferrugentos.
O homem de sessenta anos mexe nos joelhos e no lençol que poderá ser creme, que deverá ser creme para ter menos vida: é o meu braço a doer-me por dentro porque está a ser esticado com força para a frente e tenho silvas debaixo da pele a arranharem-me o peito por dentro, além das unhas dos cadáveres nas valas a cravarem-se no meu pescoço, não saio daqui, isto é um poço e eu uma criança caída lá dentro, a boiar entre limos.

(Ouve: as cidades estão longe, são coisas cheias de fotografias a cores ou retratos com vento ao fundo e as fotografias não são espelhos e as cidades, já te disse, são coisas ao longe, não as encontras na borda do corpo da tua mulher.
Chove muito e existem demasiadas pedras gastas onde podemos escorregar sem remédio.)


Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

#15


 P.

Está sol, é importante que esteja sol, e sente-se o cheiro da terra a ser queimada devagar, a erva e as árvores como brasas, sente-se o cheiro do sol contra o ar, é importante que esteja sol para que os prédios, o cimento e os vidros brilhem mais, quase magoando: uma luz impertinente, arrogante. E que o sino da igreja toque terrivelmente alto e que isso nos faça rir, é importante que isso nos provoque gargalhadas porque se não nos rirmos disso, o que mais fazer com tanta coisa absurda? E é necessário que a vida toda nos custe como um peso nas pernas, como roupa apertada, do avesso, para que aquilo que possamos dizer tenha alguma casa onde se abrigar, mesmo que não tenha.
Acima de tudo, é importante que esteja sol para que tudo isto seja quando pouca barba na cara, quando camisas sobre camisas e longos casacos verdes, quando café sobre cadernos e palavras sobre pombos  e mulheres e autocarros e comboios e salas húmidas e cadeiras e seiva sobre tampos de plástico e poeira e  sangue e pedras escuras e deus e não deus e a cidade e a morte e a vontade - acima de tudo, a vontade: é importante que esteja sol porque, acima de tudo, a vontade.


Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

#14



(as mãos são as cordas, as mãos são o metal a oxidar devagar, a criar farpas contra os dedos, as mãos são o frio a cristalizar-se em poucas notas e ecos e as mãos são uma explosão estelar - ruído poeira rochas deserto quente - enrolando a pele do peito, abrindo-o e largando-o à deriva)




(as mãos são ele à procura de si mesmo na água, as mãos são a água gelada sobre o corpo, a imersão no mar, as mãos são a ponta das palavras que nunca será capaz de articular.)


Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

#13



e ficar fora de pé de cada vez que se pretende um passo.